quarta-feira, 20 de setembro de 2017

Bicicleta Brasil em filme

Escola Blogspot
20 de Setembro de 2017

Bicicleta Brasil o filme

Ontem, 19 de Setembro de 2017, Renata Falzoni fez a primeira exibição do filme de sua direção e produção "Bicicleta Brasil", documentário sobre a ida pedalando de um grupo de ciclistas em 1998 para Brasília onde entregaram um manifesto pró então novo Código Brasileiro de Trânsito ao Presidente da República Fernando Henrique Cardoso. No código anterior a bicicleta só era citada em placa de proibida a circulação e o CTB que viria (o atual) era um grande avanço. Foi a primeira vez na história que o Palácio do Planalto recebeu ciclistas com suas bicicletas.
O filme Bicicleta Brasil, muito bom por sinal, será exibido no Rio de Janeiro e Salvador, e como aqui após o filme acontecerá um debate sobre a questão da mobilidade com foco especial na bicicleta. 

O debate de ontem só confirmou o que está por aí: até que enfim a palavra de ordem é negociar. Foi-se o tempo da confrontação pura e simples. A fala do Secretário de Transportes do Município de São Paulo, Paulo Avelleda, foi marcante neste sentido. A plateia de exatas 100 lugares, cheia, estava pouco dividida, pendendo muito mais para os que concordam com "negociar" que os que ainda pensam em algum confronto, aliás mesmo estes bem mais calminhos em suas posições.

No happy hour de quinta-feira passada, cinco dias atrás, promovido pela ABRACICLO no primeiro dia do Shimano Fest (que foi um sucesso absoluto), no meio de algumas conversas falava-se abertamente que o movimento cicloativista paulistano derreteu sob seu próprio fogo. De tudo um pouco: histórias sobre desvios, vaidades, falta de controle emocional, sexo, drogas e rock roll (duvido que rock de qualidade), fanatismo, politicagem, falta de inteligência... Triste, muito triste. Bom, caiu a ficha que a bicicleta precisa de um discurso completamente novo, que chegue e interesse a massa de ciclistas que está rodando abandonada pela cidade.
É fato que mesmo quem esteve no início deste movimento cicloativista, que segundo Renata Falzoni começa para valer em 2008, e que inegavelmente berrou alto e conseguiu espaços importantes, vem aos poucos abandonando o barco, a maioria por desilusão, outros por inteligência. Hoje é fácil encontrar quem fale do passado com um gosto amargo de arrependimento. Triste. Faz parte de um amadurecimento? Pode ser, mas a que custo?

De minha parte não consigo controlar a raiva. Não precisava ser assim, mas como dar bom rumo a uma turba enfurecida e manipulada? Sim, acabei de abrir o dicionário e checar "turba", como normalmente faço com termos mais agudos, e mantenho: turba enfurecida e manipulada. 

A cada passo que a humanidade dá no sentido do radicalismo retrocedemos e perdemos tempo no sentido da realização do sonho de um planeta melhor. Com tantos exemplos que vivemos hoje não fica claro que confrontação é o caminho mais medíocre a seguir? O problema está na forma de colocar boas ideias, que viraram chatas, insistentes, inconvenientes, até repulsivas. Quanto desperdício!


Particularmente não preciso de exemplos da humanidade. Sei muito bem qual é o preço das minhas fúrias e inflexibilidades e me arrependo amargamente de cada uma delas. O uso da bicicleta me trouxe boa parte do pouco bem que aprendi nesta vida. Tudo que eu queria, e sigo querendo, é que a bicicleta leve a sabedoria, inteligência em seu sentido maior, a paz. Infelizmente a vida não acontece como a gente gostaria, principalmente neste país medíocre chamado Brasil. Olho o que está aí e sinto uma dor imensa na alma. Onde errei?

segunda-feira, 18 de setembro de 2017

Key West, um sonho de biplano e Museu Dali

Key West é um dos lugares mais simpáticos, charmosos, leves, que tive o prazer de estar. Pequena, acolhedora, com um patrimônio histórico singelo, mas de rara força. Mesmo onde é mais turística Key West é agradável, cheia de gente cordial, completo e divino zoológico humano, em grau, gênero e número. Pela posição geográfica e geografia tem nascer e por do sol no mar, espetáculos sempre acompanhados quase religiosa e misticamente por turistas e locais, sempre encerrado com aplausos e preces por mais dias maravilhosos cheios de vida e alegria, o que normalmente acontece.
O mar é quente, limpo, um sonho para quem gosta de nadar. Melhor ainda para quem nunca havia visto um albatroz flutuando tranquilamente tão de perto. O bicho é grande, muito grande, muito maior do que podia imaginar. E infelizmente arisco. Cheguei com toda suavidade a uns 10 metros e ele, muito desconfiado abriu as imensas asas e decolou desengonçado. Um outro passou por cima de mim majestoso e também se foi. Tivesse cagado teria sido bombardeio da Segunda Guerra Mundial, ou coisa parecida.
Pudesse eu voltaria todo ano para carregar a alma em Key West. Me sinto em minhas férias de infância.
Estranho, mas o local parece um paraíso da Huffy, uma marca de bicicleta básica americana que é muito charmosa.

Próximo dali, um pouco antes, na cabeceira norte da Seven Mile Bridge, ponte que já foi cenário de vários filmes, fica Key Marathon e seu pequeno aeroporto, com seu pequeno biplano vermelho com asas amarelas Waco da Overseas Aero Tours - Florida. Soube dele faz muito, mais de duas décadas. Monica Barros chegou contando deliciada sobre a experiência do voo. Desde aquele momento quis ter um encontro com a juventude de meu avô Arturo Raul que voava pilotando seu biplano sobre os campos de La Prata, Argentina. Voltando para Miami vi a placa, entrei no aeroporto, parei próximo ao pequeno e impecável Waco vermelho e amarelo. Sem mais perguntei ao jovem que limpava carinhosamente o aviãozinho quando poderia voar, e recebi um imediato "já". É uma experiência única, uma volta a um tempo de homens destemidos, aventureiros, muitos heróis. Imperdível. É incrivelmente rápida a decolagem, uma pequena acelerada e uns metros a frente suavemente estamos no ar, vento na cara de sua hélice de madeira, o barulho forte do motor. E a paisagem maravilhosa do mar translúcido que vai muito lentamente passando logo ali, um pouco abaixo, com um mar transparente, tartarugas, arraias e tubarões, os maiores e mais visíveis até para quem não vê direito. Escolhi o voo mais longo, mesmo assim me pareceu tão curto. Uma rápida passagem sobre a pequena cidade, uma curva para a esquerda, motor cortado e uma aterrizagem suave e curtíssima, quase como a de um helicóptero. 
Poucas vezes na vida fiquei tão angustiado quanto com a passagem do furacão Irma que pegou em cheio os Keys. O olho do furacão passou praticamente sobre a Seven Mile Bridge, ou seja, quase no aeroporto de Key Marathon. Os estragos nos Keys é imenso. As primeiras fotos de Key West são bem ruins. Esperança é a última que morre e ainda tenho alguma esperança que o patrimônio histórico da cidade tenha sido pouco menos afetado do que tudo indica. Key West que vi é parte de minha vida e não gostaria de ver desintegrada mais uma imagem, como tenho de Guarujá e tantas outras praias daqui.
Mandei uma mensagem no Facebook para o jovem piloto perguntando sobre a família e o aviãozinho. Todos bem. 
Este é o primeiro filme que mostra bem como está Key West, menos assustador do que imaginava, mas mais maltratada do que minha alma infantil desejaria. Incrível, vê-se no filme que as Huffys sobreviveram, submersas, mas inteiras.

Espero que o Furacão Maria, recém nascido e que já ganhou força 5, não passe por lá.

Outra preocupação é com o Museu Salvador Dali em St. Petersburg, http://thedali.org/, uma coleção sem igual deste gênio. Pelo que li e ouvi a construção moderna foi feita para aguentar qualquer coisa. Espero que também o furacão Irma.


terça-feira, 5 de setembro de 2017

Saudades do Brasil

Entramos num posto de gasolina numa estrada de Portugal para tomar um café e descansar um pouco. Passei os olhos nos CDs e lá estava "Carminho canta Tom Jobim". Tom Jobim sempre é bom, mas como será cantado por Carminho? Descobri ser maravilhoso. Carminho é uma das mais respeitadas cantoras portuguesas, canta em cima da partitura, mas por sua formação um fundo gostinho de fado polvilhando Tom Jobim. A densidade resultante é impressionante.
Ouvindo e dirigindo pelas estradas portuguesas, lisas, bem sinalizadas, de belas paisagens, ligando cidades limpas, bem arrumadas, com povo cordial e bem educado, quase tive que parar o carro. Foi duro controlar a emoção, o choro. Não só pela intensidade que as eternas músicas do Tom têm e tomaram com Carminha, mas porque começou a passar um filme sobre o que foi o Brasil Bossa Nova, quais eram nossas perspectivas de então, e no que nos transformamos. Como aquilo deu nisto? Onde foi parar aquele Brasil? Pergunta retumbante.
A saber, faz uns 10 anos fizeram um levantamento sobre quais eram as 10 músicas mais tocadas no planeta e Jobim entra nada mais que com quatro, Garota de Ipanema, Águas de Março, Wave e... e... (não me lembro). Beatles com uma, Elvis uma, etc... uma cada. Aquele Brasil ainda atrasado, terrivelmente desigual, mas menos brutal que o dos dias atuais, foi estupidamente desintegrado, incluindo (e talvez principalmente) sua música. 
Murillo meu irmão um dia perdeu as estribeiras com a pasmaceira de alguns de seus alunos e passou a gritar “Sonhem, sonhem, sonhem!”. Perdemos o sonho, perdemos delírio, perdemos a graça, perdemos a paz, perdemos nosso país, o Brasil brasileiro. Com certeza até mesmo para os mais pobres e sofridos. Tínhamos um absurdo abismo social, mas não uma guerra civil sem sentido até dentro do mesmo nível social, da mesma comunidade, entre irmãos. Pior, virou uma guerra civil politicamente correta, sem dúvida a pior de todas. Dá para acreditar neste país?

Ditado chines: A vida é como as nuvens que passam e nunca mais voltam.

Estou lendo a história (real) de bruxos, feiticeiros e afins. O que arrepia não é a carnificina, famílias inteiras virando churrasco, mas como nestes muitos séculos não mudamos nada. 




terça-feira, 22 de agosto de 2017

Valor do dinheiro público

O Estado de São Paulo
Fórum do Leitor

O art. 618 do Código Civil diz que "Nos contratos de empreitada de edifícios ou outras construções consideráveis, o empreiteiro de materiais e execução responderá, durante o prazo irredutível de cinco anos, pela solidez e segurança do trabalho, assim em razão dos materiais, como do solo", o que inclui obras públicas. Um pouco depois dos cincos anos da entrega da grande obra da Operação Faria Lima / Pinheiros, que se estende do Largo da Batata até o Terminal Pinheiros, tudo está degradando num ritmo assustador. Primeiro foram as calçadas que se despedaçaram rapidamente, agora é o concreto das ruas que está se partindo. Não é exemplo único ou isolado de gestão duvidosa, para dizer o mínimo, de dinheiro público. Para as empresas de engenharia é um ótimo negócio, já que de curtos espaços de tempos tem que refazer tudo – com nosso pobre dinheirinho, dinheiro público. O erro começa na Lei Federal 8.666 que regula licitações e que prevê como princípio básico, relevante, o menor preço, não qualidade e durabilidade, pontos básicos de bom uso de qualquer centavo. É lógico que as leis dão espaço para reclamar defeitos e exigir reparação dos problemas, mas vai lá tentar para ver qual é a realidade. A real realidade está em todas as partes: baixíssima qualidade, um eterno consertar, remendar e reconstruir, verbas públicas insuficientes, pelo menos para a população, nunca para as empreiteiras ou prestadoras de serviço. Não resta dúvida que os maiores responsáveis somos nós, brasileiros civis: sempre aceitamos qualquer porcaria e nunca reclamamos.

quarta-feira, 9 de agosto de 2017

O imediatismo milagroso brasileiro

Fórum do Leitor
O Estado de São Paulo
09 de Fevereiro de 2017

O imediato e milagroso brasileiro


É impressionante como mesmo brasileiros bem formados e bons profissionais tem dificuldade de olhar as situações mais próximas como um todo e não como um fato isolado. Pode-se dizer que é tipicamente brasileiro pensar e agir dentro da esperança de um imediatismo milagroso. E quanto mais o país, os Estados, as cidades, os bairros, as comunidades afundam numa cascata de erros, problemas, displicências, mais este delírio parece aprofundar se em nosso espírito. Não fomos educados para pensar. O Brasil é hoje uma colcha de retalhos maltrapilha e curta, que na hora do aperto cada um puxa para seu lado e descobre o outro. Parece estar fora de cogitação tecer em conjunto algo novo que aconchegue a todos ou pelo menos a maioria. Comparado com países até mais pobres fica claro que somos um país que a 40 anos caminha erraticamente e aprofunda suas crises. Deprimente.

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Estou envolvido em um novo projeto, que não tem nada a ver com bicicletas. Como sempre o primeiro passo foi colocar no papel um break down da situação, ou seja, um mapa de tudo que é diretamente ou indiretamente relacionado com o tema. Algo parecido com que tem no site do Escola de Bicicleta - http://escoladebicicleta.com/livro.html - ou seja, um olhar horizontal sobre o que se está tratando. Como o assunto é novo para mim coloquei os pontos que meu breve conhecimento da causa considera mais importantes, nada especial ou aprofundado. E fui buscar ajuda de especialistas da área de quem esperava uma revisão em meu trabalho inicial e orientação para futuros passos. E estou chocado com o resultado: ninguém entendeu o que estava lá. Erro meu? Não. Mais uma vez, das inúmeras experiências que tive na vida, percebo que as pessoas, principalmente brasileiros, são educados e treinados para o imediato, para que está grudado na sola do sapato, se tanto. 
Já escrevi e apaguei deste texto um monte de exemplos. O que adianta dá-los? 

sexta-feira, 21 de julho de 2017

Brasil: do jeito que vai sem futuro

O Estado de São Paulo
Fórum do Leitor:

Brasil: buraco sem fim

Parece que nós, brasileiros, não estamos entendendo que o Brasil e o mundo mudaram e que nos dias de hoje não há mais margem para as maluquices que estão acontecendo por aqui. A economia global pode viver sem o Brasil ou qualquer país que não tenha regras claras e economia ajustada. Hoje nenhum país do mundo, por mais estável que seja, suporta tanta irresponsabilidade e violência junta. Não paramos de trocar mensagens, conversar, e até mandar textos para as mídias, mas não fazemos praticamente nada de prático para frear a loucura que vivemos. Estamos todos cansados, eu diria exaustos, mas deixar as coisas correrem do jeito que estão correndo resultará num futuro pobre, sujo e violento para nossos filhos e netos. Será que nem eles valem uma reação forte, pacífica e sensata?

quinta-feira, 20 de julho de 2017

Fernando de Azevedo, meu avô


O ar de São Paulo sem a inspeção veicular

O Estado de São Paulo
Fórum do Leitor:

O termino da inspeção veicular em São Paulo foi resultado de alguma irregularidade de contrato alegou na época Haddad e sua equipe do PT.  Para reforçar a decisão alegaram que as outras cidades da Região Metropolitana não tinham controle sobre a qualidade da emissão dos veículos e que por isto a diferença de qualidade do ar na cidade de São Paulo com a inspeção veicular era pouca. Haddad diminuiu a velocidade dos veículos, o que compensou, mas seguindo a mesma linha a diminuição foi só na cidade de São Paulo, portanto as emissões nas cidades vizinhas permaneceram as mesmas. Falaram também que as ciclovias iriam ajudar a melhorar o ar, uma espécie de compensação entendi eu. Dos 400 km de ciclovias entregues até mesmo os cicloativistas concordam que pelo menos 100 km não servem para nada, isto numa cidade com mais de 17.000 km de vias pavimentadas. O número de ciclistas nas ruas cresceu, mas pouco ou quase nada representa nos índices de poluição. Mobilidades ativas, não motorizadas, fazem parte do futuro de qualquer cidade, ninguém duvida, mas deve ser planejada dentro de um contexto muito maior que inclui a qualidade das emissões veiculares, ou todos, incluindo ciclistas, vão ter problemas respiratórios cada dia mais graves. A inspeção veicular deixada por Kassab teve seu fim decretada por Haddad pode ter tido suas boas razoes, inclusive legais, mas não deixou de ser uma decisão de campanha, populista típica de PT, que afeta gravemente a saúde de toda a população paulistana. Vide o esgotamento de alguns remédios para tratamento de vias respiratórias (não gripe).

sexta-feira, 14 de julho de 2017

Sem perícia, sem verdade; e futuras mortes


Este filme mostra o crash test frontal em obstáculo imóvel do VW Jetta, creio que o mesmo carro envolvido no acidente que matou carbonizado o comissário de bordo na av. 23 de Maio. Se não me falha a memória a velocidade padrão num crash test é de 40 km\h. Olhando a deformação frontal do Jetta neste crash test e comparando com o que restou do acidente ocorrido nesta madrugada e sabendo que o veículo onde morreu carbonizado o comissário de bordo estava em movimento, a 50 km\h, e tem estrutura deformável, dá para imaginar que a velocidade de impacto do Jetta devia ser superior a 100 km\h. Creio que não esteja errado.
A matéria do SPTV 2 edição é boa e dá para entender:
http://g1.globo.com/sao-paulo/sptv-2edicao/videos/t/edicoes/v/motorista-do-acidente-na-bandeirantes-esta-preso-e-vai-responder-por-homicidio-doloso/6008591/

Por que estou fazendo esta análise mequetrefe? Simples: segurança no trânsito é ciência. Não dá para ficar falando besteira por ai. Besteira mata. Mata porque esconde a verdade e sem a verdade os acidentes se repetem. 
Brasileiro não é afeito a pesquisa, menos ainda a números, à verdade. Só se para a barbárie que vivemos através da lei e ordem. Não pressionar o Governo para que tenhamos mais e melhor perícia judiciária e legistas é condenar o pais a violência sem fim. 

É óbvio que não vai haver condição de perícia para saber porque o carro do comissário de bordo pegou fogo, o que não poderia ter acontecido mesmo com uma colisão tão forte. A conversa vai se manter no comportamento do advogado motorista. Detalhes técnicos vão ficar em segundo plano, mas são justamente estes detalhes que melhoram a segurança de todos.

Desculpem por ser chato e repetitivo, mas quando vamos tomar consciência e agir para parar a barbárie?

segunda-feira, 3 de julho de 2017

despolitizar, negociar

Andei ouvindo mais algumas conversas sobre o que fazer com o "sistema cicloviário" de São Paulo. Todos perdidos no espaço. O que fazer? Que passos dar daqui para frente? Como abrir espaços na Prefeitura? Muitas reclamações, muitos comentários, poucas respostas práticas. É de se esperar que no meio de toda esta baderna generalizada que vivemos no Brasil o pessoal esteja um tanto desorientado. Pelo menos tenho ouvido que "precisa despartidarizar", o que para o que tínhamos até ontem parece ser uma mudança de posição inacreditável de um pessoal que até pouco tempo não conseguia sequer ser objetivo e confundia ciclovia com Brasília. Uns ainda confundem.
Diz a sabedoria milenar que para sair de uma situação confusa é preciso dar um primeiro passo. Despolitizar é sem dúvida um belo passo rumo à luz do túnel.
Tive uma breve e superficial experiência com a coisa pública e aprendi que lá dentro as coisas fogem um pouquinho, só um pouquinho, da lógica e bom senso esperados. Tipo assim: em 2005 numa vistoria em Interlagos \ Grajaú dei de cara com a Ponte Vitorino Goulard da Silva, em Jurubatuba, paralela a barragem da represa Billings, já em estado avançado de obras. Ninguém do projeto GEF Banco Mundial para bicicletas na periferia, que reunia mais de 10 Secretarias da Prefeitura e Estado, mais CET e outros, inclusive sociedade civil, sabia da existência sequer do projeto da bendita ponte. Olharam com cara de espanto para mim, como se eu estivesse surtando, e só acreditaram quando mostrei as fotos, pior, quando foram ver pessoalmente. É uma burocracia e corporativismo infernal, um jogo de esconde-esconde ridículo. Até o diabo em pessoa deve achar aquilo fora do controle, coisa de maluco. É obvio que foi projetada e concluída com uma calçada acanhada para receber o trânsito partilhado de pedestres e ciclistas, mesmo sendo uma das áreas com maior número de ciclistas da cidade. 
Ouvi num passado não muito distante de muitos cicloativistas que "dar um passo atrás é inaceitável". Negociar, uau, estão falando em negociar, tem um pessoal falando em conversar, negociar. Bravo!
O escritor israelense Amos Oz em sua palestra para o Fronteiras do Pensamento disse 'Fanáticos sempre esperam respostas simples' e completou o pensamento com a esperança que o cansaço de conflitos vai abrir espaço para diálogo e acordos. Citou a história da humanidade como base para suas ideias. E assim é porque assim sempre foi.
Mais incrível ainda é que já ouvi aqui e ali vozes de ciclistas falando que “a cidade existe” e que “o sistema cicloviário deve estar integrado a cidade”. Um não exclui o outro, muito pelo contrário. Ainda vão chegar lá, calma que vão chegar lá. 

Sistema cicloviário não é o fim, é o meio. 

quarta-feira, 28 de junho de 2017

Incitação à violência

Fórum do Leitor
O Estado de São Paulo
28 de Junho de 2017

Incitação à violência

É inegável que parte do acontecido na rua Augusta, que resultou em uma senhora e alguns skatistas feridos, também é fruto de incitação contínua à violência, intencional ou não, principalmente por parte de jornalistas, blogueiros e formadores de opinião ligados ao movimento da bicicleta, para iniciar com o que está mais na moda, skatistas e outras mobilidades alternativas. Sim, pedestres, ciclistas, pessoas com deficiência e qualquer um que realize mobilidade com veículo menor que um carro deve ter prioridade, como diz a Lei, o CTB, mas isto não imputa culpa e máxima pena automática ao motorista em caso de acidente. Defender uma posição desta forma é extremismo, é radicalismo, é incitação à violência. O uso da motocicleta é uma forma de modo de transporte como qualquer outra, mas a incitação à violência transformou a vida dos motoboys em guerra. Deveria ter sido o exemplo a não ser seguido, mas muitos do movimento da bicicleta decidiram declarar motoristas como assassinos por princípio, o que os números frios mostram que não são. É triste, muito triste, porque bicicleta, assim como skate, trazem consigo uma história internacional de levar à paz, ordem social, renovação da cidade, um futuro melhor para jovens, crianças, filhos e netos.

O vídeo de Renata Falzoni Atropelamento em massa de skatistas não foi acidente, foi atentado se pode ver o motorista, com um garoto no capo de o carro, sim acelerando em frente no meio da multidão, mas diminuindo a velocidade e desviando de outros skatistas que estavam no meio da rua. Num atentado em massa, como diz o título de matéria acima, o motorista buscaria fazer o maior número de vítimas possível, como se vê nas trágicas filmagens que temos dos atentados praticados na Europa e em NY.

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Logo em seguida de enviar o texto para o O Estado de São Paulo encontrei o Felipe e conversamos sobre a história. Felipe chamou o motorista de covarde e me perguntou se teria feito a mesma coisa. Minha resposta é sim, se tivesse que tirar minha mãe, ou qualquer pessoa que estivesse comigo, de lá teria seguido em frente. Felipe perguntou porque ele não virou a direita. A pergunta que faço é se a rua Augusta já estava toda fechada com cavaletes ou viaturas. Porque ele não passou por cima dos cavaletes, replicou Felipe. A questão numa situação destas tem um componente, pânico. Todo mundo sabe que Brasil é um dos países mais violentos do mundo, um dos campeões de linchamento. 
É fácil e muito perigoso para o movimento da bicicleta apontar o dedo e culpar, mesmo que a situação pareça óbvia, mas seria muito mais sensato e produtivo procurar conhecer todos os fatores que envolveram a situação. É fácil construir discórdias e ódio. Difícil e demorado é construir a paz. Para mim bicicleta é um veículo de paz. Skate também. E os outros de vez em quando cometem erros. Aliás, nós também cometemos erros. A vida é assim.
Felipe, desculpe pelo minha forma de conversar. Infelizmente o tema - violência - é visceral. Eu quero paz.

Vídeos mostram skatistas atacando carro de motorista antes do atropelamento na Rua Augusta
ps.: um erro não justifica o outro

sexta-feira, 23 de junho de 2017

Semáforos desalinhados

Fórum do Leitor
O Estado de São Paulo
23 de Junho de 2017

Semáforos desalinhados

Faz uns dias quase aconteceu uma colisão entre dois carros na esquina das ruas Domingos Barbiere com Hugo Carotini, no Caxingui, porque um dos semáforos, o mais baixo, estava desalinhado 45 graus, ou seja, com luz verde visível nos dois sentidos. Passo por lá a anos e o semáforo sempre esteve corretamente alinhado. Informei um agente da CET que encontrei mais adiante e este logo saiu para o local. A partir deste incidente comecei a prestar atenção nos semáforos e para meu espanto encontrei vários desalinhados, uns mais outros menos, com o foco de luz numa posição que confunde perigosamente motoristas. Contei o fato para amigos e alguns contaram que tem notado o mesmo problema em várias partes da cidade. O que está acontecendo? É comum ver caixa de sinalização arrombada, semáforo e placa de sinalização pichados, e outras depredações. Molecagem ou ação muito perigosa? Confesso minha preocupação é que seja mais uma ação política radical, ou como queiram chamar. Alguém tome providências, descubra os responsáveis e puna nos termos da lei antes de um acidente grave ou fatal.

quinta-feira, 15 de junho de 2017

Perdedores e vencedores

Domingo num almoço de família no meio de conversas esportivas o pessoal soube que Felipe Massa tinha saído da corrida já primeira volta. As críticas a ele e Barrichello foram imediatas e duras, como sempre. "Perdedores!" Brasileiro é impiedoso com seus esportistas, de todas as áreas. Barrichello foi e continua sendo preferência nacional para as críticas, uma espécie de ícone do esportista perdedor. Eu acho deprimente, literalmente deprimente. Acho deprimente porque este julgamento traz consigo uma análise absolutamente ignorante dos fatos. Coisa de país perdedor, o que de fato e regra somos, brasileiros.
Nelson Piquet e sua língua inteligente e ferina soltou que "o segundo colocado é o primeiro perdedor". Acertou na mosca do pensamento popular brasileiro. Um belo deboche com os que vivem fora da realidade. Afinal, porque a categoria mais complexa, sofisticada e avançada do automobilismo, e talvez de todos esportes, contrataria e manteria em longeva atividade dois pilotos como Barrichello e Massa, considerados perdedores pelos compatriotas?

Outro dia esteve no Roda Viva da TV Cultura o pesquisador da FGV Samuel Pessôa. Um dos Twiter define bem o que foi: "Surpreendentemente didático e fácil comunicação..." Samuel (1:06:10 do programa) fala que "O Brasil está condenado a mediocridade" . Não é o primeiro que faz esta análise, que tristemente ouço faz décadas e sempre me recusei a aceitar. Hoje ainda tenho dificuldade de aceitar, mas tenho dificuldade de ver outro horizonte. 
Temos que mudar muita coisa para conseguir fazer deste país alguma coisa. O marco zero é deixar para trás nosso complexo de vira-lata, como dizia já o Nelson Rodrigues na década de 50. Um dos reflexos deste nosso complexo de inferioridade destrutivo é exatamente esta falta de respeito por qualquer personalidade, trabalho ou conhecimento que não seja vitorioso ao estilo Ayrton Senna, Guga ou outros tantos.
Conheci pessoalmente e acompanhei o excelente trabalho de várias pessoas pela vida que poderiam ter de fato ter feito deste país algo bem próximo do que sonhamos, mas que tiveram seus trabalhos simplesmente jogados no lixo. Para o brasileiro são perdedores. Muito mais cômodo acreditar no grande paizão, no salvador da pátria, em ilusões, a fazer críticas sem qualquer fundamento. 

Um bom exemplo de um destes "perdedores" do Brasil vale ler o currículo de Roberto_Pupo_Moreno, mesmo que não goste de automobilismo. O Brasil está cheio de "perdedores" como ele. Triste.

sexta-feira, 2 de junho de 2017

Brasil: epidemia de violência

Saímos de um Brasil que sempre teve problemas de violência para viver num país metido numa inacreditável epidemia de violência. A matéria é da Globo, mas os números são oficiais e a clareza da situação é genérica. Uma violência  nunca antes vista neste país. O Brasil está passando pela Lava Jato com aplausos de toda população (ou praticamente toda, como vocês sabem). O mesmo Brasil que faz um silêncio macabro sobre a violência e seus homicídios.
A saber: em 2015 foram mais de 60.000 homicídios (sem contar trânsito).
Entre 2000 e 2015, portanto Governos Lula e Dilma, PT, o Brasil teve 853.850 mortes violentas. Pode-se dizer que o PT socializou esta epidemia de violência.
Quando nós, brasileiros, vamos tomar vergonha na cara e exigir que se investigue a possível ligação dos políticos com o tráfego de drogas, crime organizado e violência generalizada. Bobagem? Brizola e o acordo com o tráfego do Rio foi bobagem ou prenuncio? Procurem nos arquivos dos jornais.
Quanto custa o silêncio?

Pergunte aos pais de Vitor Gurman e Leonardo Araujo dos Anjos, jovens promissores mortos violentamente em acidentes de trânsito. Ou a família de Fernando, assassinado numa esquina por causa de uma relógio. Ou... ou... ou... ou...


Quem será o próximo? Uma boa opção para estar incluído na lista é ter uma bicicleta de boa qualidade e pedalar numa Sumaré, Cidade Universitária, Villa Lobos, alguma rodovia,...

quarta-feira, 31 de maio de 2017

Abismo entre a realidade e o futuro

Faz mais ou menos um ano refiz o telhado de meu apartamento. Troquei as péssimas telhas onduladas de cimento alguma coisa (amianto?) por telhas termo - acústicas, a melhor coisa que poderia ter feito, o que recomendo a todos. O apartamento de último andar não é mais um forno ou uma geladeira. Ficou uma delícia. 
A empresa que realizou o trabalho mostrou um profissionalismo bem acima do padrão brasil (padrão este que merece um b minúsculo) de construção civil. Já recomendei-os para outros.
Ontem um funcionário do edifício me avisou que havia problemas com o telhado. A manta isolante de vazamentos entre a parede e a calha se soltou. E mais umas besteiras. Mandei a notícia, com fotos, para o responsável pelo trabalho no telhado. Ai a conversa descambou para a normalidade da terra brasilis. 
A primeira questão é como uma obra realizada com bons profissionais (acompanhei in loco a obra) pode em menos de um ano apresentar qualquer problema? Erro deles ou baixa qualidade do material? Um pouco de cada? Aposto numa balança pendendo para o mau material, problema crônico do Brasil. Repito: uma calçada em Milão tem que durar 25 anos. Aqui? Você me o diga.
O outro ponto que chama atenção foi a conversa que tive com o responsável pela obra no telhado, que considero um cara de bom nível, sério, educado, mas brasileiro, sim brasileiro. Não vou repeti-la aqui, mas como sempre aponta para o abismo abissal que temos em relação ao que o brasileiro até de certo nível entende por qualidade, durabilidade, custo \ benefício..., enfim estas coisas básicas, estúpidas, minímas, que fazem de um país uma nação ou paiseco de terceiro mundo que acha, dentro de sua imbecilidade, que será um país do futuro. Espera sentado e próximo de uma cama. Deste jeito jamais,.
Como bem disse um comentário neste blog sobre minhas lamentações: "Pare de reclamar e ache soluções". Confesso que não sei, não consigo achar um caminho, não durmo pensando como agir, o que fazer. Como reposicionar um país? Como fazer milhões de pessoas entenderem que via de regra 2+2 tem que dar 4, só pode dar 4, e que a história prova que os que duvidaram desta matemática básica foram empobrecendo, empobrecendo, empobrecendo... Confesso que não sei. E gostaria de saber e trabalhar numa mudança.
Calçada e calçamento em pedra portuguesa, Lisboa.
Estranho, aqui se diz que calçadas em pedra portuguesas dão problemas rapidamente.

terça-feira, 30 de maio de 2017

O imediato "nem um cm a menos"

Quando fui Bike Repórter Eldorado, entre 1999 e 2001, recebi apoio da Olympikus, marca esportiva brasileira. Me deram tênis, camisetas, bermudas, shorts, meias, cuecas... ou seja, equipamento completo, e mais algumas peças para Teresa, em particular uns bustiers que até hoje ela considera insuperáveis em qualidade e conforto. Minhas últimas peças estão acabando agora, mais de 15 anos depois, depois de uso contínuo e sem piedade. Ainda tenho um par de meias, shorts de correr, uma bermuda, a camisa oficial da seleção olímpica de vôlei patrocinada então pela Olympikus, a única que guardo para eventos especiais, como os protestos de rua. A durabilidade destes vestimentos foi excepcional para nossos dias de marcas internacionais famosas, caras e rapidamente descartáveis.
Um amigo que conhecia o que estava acontecendo na Olympikus daquela época disse que a marca estava fazendo um grande esforço para nivelar-se em conhecimento da marca e vendas com as grandes marcas esportivas internacionais, dai produtos com uma qualidade surpreendente, melhor que das concorrentes internacionais, mas o brasileiro continuou optando pelo nome e status e a Olympikus teve que se reposicionar, ou seja, voltar a realidade de ser uma marca brasileira para o gosto e sensibilidade brasileira. 
Na mesma época Teresa D'Aprile gerenciou uma loja de material esportivo onde a maioria dos tênis das grandes marcas, principalmente os caríssimos, eram comprados em trocentas prestações por pessoas de pouco poder aquisitivo. Não mudou muito porque não faz muito vi com espanto na vitrine o lançamento de um tênis de R$ 1.000,00 que imaginei que nenhum louco o compraria. Em pouco tempo muitos usavam, boa parte gente simples. Aparência vale tudo.

Não resta dúvida que este é o país que tem por opção o mais barato, precário, imediato, a aparência. É histórico, sempre foi assim. Olhem nossas cidades, o melhor espelho do que somos como coletividade, como sociedade. Olhem as periferias e favelas com suas ruas e vielas feias, sujas, tortas, sem verde; casas de aparência externa malcuidadas e interiores limpos, bem cuidados, de encher de orgulho vaidoso seus proprietários, principalmente a TV de 'n' polegadas na apertada sala que quase coloca o nariz dos moradores na tela, e geladeira, fogão e demais complementos impecáveis da linha branca na cozinha. Dentro tudo. O coletivo não é de ninguém. O orgulho é meu. "Os pobrema é dos outro".

A baderna que vivemos neste país, que não é de agora, só será superada quando começarmos a respeitar nossas cidades, para que estas sejam locais agradáveis, tranquilos, onde a população viva em paz. Coletivo, portanto com diálogo, muito diálogo. Não há outro caminho.

"Nem um centímetro a menos (das ciclovias)" não olha para cidade (de São Paulo), nem para os ciclistas. Olha para o imediato, o status entre os iguais. Tão parecido com desfilar com um tênis caro de marca importada...

terça-feira, 23 de maio de 2017

mais que uma questão de cidadania...

Espanha, mais de 60 milhões de turistas\ano, 14% PIB

Andalucía, 

Córdoba, 329.000 habitantes, 20 museus
Museu Julio Romero Torres - http://museojulioromero.cordoba.es/?id=1 
Mesquita Catedral de Córdoba - https://mezquita-catedraldecordoba.es/ - uma das principais obras arquitetônicas do planeta - embasbacante!
e ...

Málaga, 569.000 habitantes, 36 museus - 27 museus nos guias de turismo
Museu Carmen Thyssen Malaga - http://www.carmenthyssenmalaga.org/en/
Museu Picasso Málaga - http://www.museopicassomalaga.org/ - está com a exposição Bacon, Freud e a Escola de Londres, coisa para raros museus do planeta.
Museu de Málaga - http://www.museosdeandalucia.es/cultura/museos/MMA/ - umas 3 vezes o tamanho do MASP, com uma coleção maravilhosa de pintores espanhóis
Centre Pompidou Málaga - http://www.centrepompidou-malaga.eu/
e ...

E o... Brasil?
São Paulo, principal cidade do país, mais de 12 milhões de habitantes, um dos PIBs mais altos do mundo...
Como estão nossos museus e patrimônio histórico? 
Como está nossa cultura?

Abaixo o editorial da revista Beaux Arts sobre presidentes, a política de cultura na França e sua importância na macroeconomia.
Temos que sair desta baderna que o país está atolado e para isto é bom que se pense em prioridades, passo a passo. Dado o caos que nos encontramos não tenho dúvida que cultura não está entre os primeiros passos, mas creio que ninguém tem dúvida que educação, portanto cultura, deve estar entre futuros e inevitáveis passos para de fato se ter um Brasil que queremos. 
Ler este editorial prova, mais uma vez, outra vez mais, que nosso abismo é muito maior que temos certeza. Dá 'pistas' do porque a França tem a política de cultura que tem.
 


sábado, 20 de maio de 2017

A opção pelo carro preto

Um dia virou moda no Brasil ter carro preto. Sempre achei estranho porque carro preto era a cor oficial dos carros do poder público, o que naquela época era símbolo de coisa errada, jeitinho, corrupção, do que lutávamos contra. Era de se estranhar também porque vivemos em um país tropical, portanto (para quem não sabe) com clima quente, e preto é a cor que mais absorve calor. Ar condicionado em carro era coisa rara, cara, de gente poderosa; a maioria fervia dentro de seus carros pretos. A moda virou mania e colou.
Tínhamos acabado de sair de uma ditadura (dentadura) e nela o gosto popular era por carros coloridos, alegres, descontraídos: azul calcinha, verde abacate, vermelho malagueta... E aí entramos nesta democracia que hoje mostra suas horrorosas entranhas com o maior sonho de consumo justamente o símbolo dos "autoritários e poderosos". Vai lá entender. 
Poderia dar outros exemplos, mas creio que sejam bastante óbvios, basta pensar.




Não é de se estranhar que no meio desta luta de toda sociedade contra qualquer segregação a luta do cicloativismo tenha seja exatamente a segregação da bicicleta em todas as vias da cidade, mesmo onde não faz sentido ou não é necessário.

Outro dia ouvi algo que pode ser traduzido como "o tecnicamente correto não atende necessariamente aos parâmetros da ideologia", ou seja, melhor guiar-se pela ideologia do que pela lógica e bom senso. Desculpe, mas não consigo chegar lá; não entendi.

"Nem um centímetro a menos (de ciclovias)" é o slogan de luta de boa parte dos cicloativistas. E nestes termos "retomaram", ou retornaram, como queira, a ciclovia da rua Dr. Fausto de Almeida Prado Penteado, pirambeira em curva por onde dizem que passam ciclistas (só vi coxinhas domingueiros vestidos de franga pedalando bicicletas nada populares). Poderia até ser caminho para uma comunidade próxima vizinha ao Shopping Cidade Jardim, mas como acredito na inteligência e bom senso de seus moradores, acredito que eles prefiram o caminho plano e mais rápido pela calçada na marginal, onde se pode ver vários ciclistas e pedestres a qualquer hora do dia. A mesma calçada que a administração Haddad deixou durante boa parte de seu mandato tomada por mato e lama, intransitável, obrigando seus moradores caminhar no asfalto expresso. Denunciei o fato aqui.
"Nem um centímetro a menos" justamente num bairro coxinha, não uma coxinha qualquer, mas coxinha da cozinha do Restaurante Fasano? Eu sei; "Vocês são a verdade, a revolução, o futuro"? É mesmo? Desculpem, mas prefiro o diálogo, prefiro o passo atrás em nome do acordo social. Eu prefiro a paz.

O carro preto em país tropical é símbolo de prepotência, de falta de inteligência. Os tempos são outros, a vida mudou, as prioridades também, mas a bicicleta de dias atuais lembra tanto os carros pretos....

domingo, 30 de abril de 2017

qualidade, durabilidade, baixo custo, equidade

fragmento de calçamento Romano século II dC, Córdoba, Espanha
O Brasil precisa imediatamente formar calceteiros, especialistas em construção de calçadas. 





sábado, 29 de abril de 2017

O que fazer?

"Você viu que a vida pode ser diferente, que podemos sair da mesmice, da rotina, Não é tão difícil e dá prazer. Ótimo. Agora, você falou e reclamou de um monte de coisas. O que você vai fazer para tentar mudar pelo menos uma destas coisas".
Este comentário é sobre o texto "Brasil periferia, um passeio divertido - se não fosse trágico" que publiquei aqui neste blog. O que vou fazer para mudar alguma coisa neste Brasil do nunca antes é a pergunta que venho me fazendo sem parar, muito antes deste comentário pertinente. Minha resposta até aqui é não sei.
Tenho certeza sobre o que se tem que se deve fazer para colocar um trem chamado Brasil nos trilhos e faze-lo retomar a marcha, mas não faço a mais remota ideia de como vender o peixe, principalmente nestes tempos onde a palavra "democracia" serve para qualquer coisa, inclusive para substituir o bom senso e a lógica. Chegamos ao ponto onde é politicamente correto e imperativo respeitar ideias e vontades individuais, mesmo as de um inepto, mesmo que isto leve ao colapso coletivo. Provas disto é que não faltam. Assim como estamos num tempo no qual conhecimento e experiência valem pouco. Falar com conhecimento de causa pode ser tido como arrogância ou pior.
Talvez o Brasil precise de direitos e deveres coletivos; não sei, quem sabe? Dever coletivo, responsabilidade coletiva? Talvez qualidade. Cair a ficha que somos um país pobre de riquezas materiais e intelectuais? Parar de falar sobre saúde, educação e segurança? Parar de reclamar e agir, como disse o comentário? Com certeza. Agir? Mas como, como se faz no meio desde tiroteio de cegos?
calçada e calçamento em Lisboa
Milão: 25 anos de garantia para obra pública
Amsterdam: escola
Estou tentando acionar a garantia da obra feita pela Operação Faria Lima \ Pinheiros para que conserte as calçadas que já estão caindo aos pedaços, isto 5 anos depois da entrega da obra.