quinta-feira, 9 de agosto de 2012

individualismo de baixo nível

Nos primórdios do celular, já não faço mais ideia de quanto tempo faz, no meio de um filme tocou o celular de um sujeito que estava exatamente no meio da plateia. O proprietário atendeu e logo em seguida alguém lá do fundão gritou para ele desligar. O sujeito respondeu “então vem desligar”, o que imediatamente fez que umas trinta pessoas, homens e mulheres, das 150 que assistiam ao filme, se levantassem e ordenassem que o celular fosse desligado e que se fizesse silencio na sala. O machão ficou calado e o filme terminou sem outros incidentes.

Reação normal para a época. O direito individual era protegido pelo coletivo e individualismo, que sempre existiu, era tido como um comportamento não muito bem aceito socialmente. Eram outros tempos.

Já faz muito que o respeito pelo próximo vem sendo dinamitado, como caixas eletrônicas, em nome de um individualismo exacerbado. Hoje todos deixam seus celulares ligados durante a projeção de qualquer filme ou situação. Há inúmeros relatos de situações da mais grossa falta de educação ou bom senso. É muito comum ver a luz da telinha pipocar sem que ninguém faça absolutamente nada. Virou normal. Se você reclamar ainda pode passar por um idiota repressor. Quem sofre as consequências acaba ficando no silêncio dos inocentes.

Este é mais um dos símbolos deste Brasil do nunca antes. É a consequência da aceitação de estupidezes como “antes de entrar neste elevador certifique-se que o mesmo está neste andar”....
 

Já está em fase adiantada a ciclovia da av. Pedroso de Moraes, umas das mais belas avenidas de São Paulo, com seu bem largo e arborizado canteiro central. Não é uma ótima notícia? Depende. Da mesma forma é crucial para a recuperação da qualidade vida em São Paulo, além de estimular o uso da bicicleta e o caminhar, aumentar a área verde e diminuir a área impermeabilizada. São Paulo já foi chamada de “cidade jardim” pela quantidade e qualidade de seus parques e jardins. Hoje é uma das cidades com menor índice de m² verde por habitante. A questão da impermeabilização está diretamente ligada ao grave problema de enchentes ou da umidade do ar, dentre outros. A ciclovia vai ser colocada exatamente no meio do canteiro central. Neste momento será que há alguma outra alternativa? Talvez; mas quem se interessa?

O silêncio tem seu preço. Você fica quieto hoje e vai ouvir, engolir ou sofrer amanha. Líquido e certo. Há um projeto de ciclovia ligando o CEASA até a Ponte do Morumbi desde sei lá quando, mas já faz muito tempo, muito tempo mesmo. Não me lembro mais se nasceu com a operação Faria Lima ou se é anterior, de qualquer forma estava lá, engavetado. Qual foi a manifestação da sociedade para que a lei Operação Urbana fosse cumprida? Zero? Calaram. Qual é a discussão sobre prós e contras? Zero!

O ponto é que se houvessem tirado o olho do umbigo provavelmente veriam uma questão mais ampla do que a segurança do ciclista. Talvez enxergassem além da avenida a melhoria da qualidade de vida do bairro, a diminuição do longo congestionamento matinal, a diminuição da poluição, o aumento de verde, o melhor acesso ao Parque Villa Lobos para todos e não só para ciclistas, a possibilidade dos filhos irem para os colégios próximos pedalando, a diminuição dos assaltos, da violência... Se houvesse interesse coletivo provavelmente iriam ver aquele bairro como um bairro, não como uma via de passagem.

Por que nos transformamos numa sociedade tão individualista? Não sei se é uma questão de tradição, história, se é um reflexo dos tempos, ou o que? Outro dia, no meio de uma reunião, me dei conta que, infelizmente, pessoas esclarecidas parecem não ler jornais, ver ou ouvir notícias no rádio e TV, com a atenção necessária. Ou devem ler somente sobre o assunto específico, o que lhes é de interesse puramente individual. Ou então não conseguem fazer as conexões entre o micro, o universo próprio, e o macro. Ou, pior ainda, lhes falta inteligência. Sim falta de inteligência. Triste, mas talvez seja por ai. O Brasil desdentado e esperto do passado está se transformando no pais dos do nunca antes, portanto da mentira barata, do pouco pensar, do desinteresse, do deslumbre.

Nenhum comentário:

Postar um comentário