quarta-feira, 9 de agosto de 2017

O imediatismo milagroso brasileiro

Fórum do Leitor
O Estado de São Paulo
09 de Fevereiro de 2017

O imediato e milagroso brasileiro


É impressionante como mesmo brasileiros bem formados e bons profissionais tem dificuldade de olhar as situações mais próximas como um todo e não como um fato isolado. Pode-se dizer que é tipicamente brasileiro pensar e agir dentro da esperança de um imediatismo milagroso. E quanto mais o país, os Estados, as cidades, os bairros, as comunidades afundam numa cascata de erros, problemas, displicências, mais este delírio parece aprofundar se em nosso espírito. Não fomos educados para pensar. O Brasil é hoje uma colcha de retalhos maltrapilha e curta, que na hora do aperto cada um puxa para seu lado e descobre o outro. Parece estar fora de cogitação tecer em conjunto algo novo que aconchegue a todos ou pelo menos a maioria. Comparado com países até mais pobres fica claro que somos um país que a 40 anos caminha erraticamente e aprofunda suas crises. Deprimente.

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Estou envolvido em um novo projeto, que não tem nada a ver com bicicletas. Como sempre o primeiro passo foi colocar no papel um break down da situação, ou seja, um mapa de tudo que é diretamente ou indiretamente relacionado com o tema. Algo parecido com que tem no site do Escola de Bicicleta - http://escoladebicicleta.com/livro.html - ou seja, um olhar horizontal sobre o que se está tratando. Como o assunto é novo para mim coloquei os pontos que meu breve conhecimento da causa considera mais importantes, nada especial ou aprofundado. E fui buscar ajuda de especialistas da área de quem esperava uma revisão em meu trabalho inicial e orientação para futuros passos. E estou chocado com o resultado: ninguém entendeu o que estava lá. Erro meu? Não. Mais uma vez, das inúmeras experiências que tive na vida, percebo que as pessoas, principalmente brasileiros, são educados e treinados para o imediato, para que está grudado na sola do sapato, se tanto. 
Já escrevi e apaguei deste texto um monte de exemplos. O que adianta dá-los? 

sexta-feira, 21 de julho de 2017

Brasil: do jeito que vai sem futuro

O Estado de São Paulo
Fórum do Leitor:

Brasil: buraco sem fim

Parece que nós, brasileiros, não estamos entendendo que o Brasil e o mundo mudaram e que nos dias de hoje não há mais margem para as maluquices que estão acontecendo por aqui. A economia global pode viver sem o Brasil ou qualquer país que não tenha regras claras e economia ajustada. Hoje nenhum país do mundo, por mais estável que seja, suporta tanta irresponsabilidade e violência junta. Não paramos de trocar mensagens, conversar, e até mandar textos para as mídias, mas não fazemos praticamente nada de prático para frear a loucura que vivemos. Estamos todos cansados, eu diria exaustos, mas deixar as coisas correrem do jeito que estão correndo resultará num futuro pobre, sujo e violento para nossos filhos e netos. Será que nem eles valem uma reação forte, pacífica e sensata?

quinta-feira, 20 de julho de 2017

Fernando de Azevedo, meu avô


O ar de São Paulo sem a inspeção veicular

O Estado de São Paulo
Fórum do Leitor:

O termino da inspeção veicular em São Paulo foi resultado de alguma irregularidade de contrato alegou na época Haddad e sua equipe do PT.  Para reforçar a decisão alegaram que as outras cidades da Região Metropolitana não tinham controle sobre a qualidade da emissão dos veículos e que por isto a diferença de qualidade do ar na cidade de São Paulo com a inspeção veicular era pouca. Haddad diminuiu a velocidade dos veículos, o que compensou, mas seguindo a mesma linha a diminuição foi só na cidade de São Paulo, portanto as emissões nas cidades vizinhas permaneceram as mesmas. Falaram também que as ciclovias iriam ajudar a melhorar o ar, uma espécie de compensação entendi eu. Dos 400 km de ciclovias entregues até mesmo os cicloativistas concordam que pelo menos 100 km não servem para nada, isto numa cidade com mais de 17.000 km de vias pavimentadas. O número de ciclistas nas ruas cresceu, mas pouco ou quase nada representa nos índices de poluição. Mobilidades ativas, não motorizadas, fazem parte do futuro de qualquer cidade, ninguém duvida, mas deve ser planejada dentro de um contexto muito maior que inclui a qualidade das emissões veiculares, ou todos, incluindo ciclistas, vão ter problemas respiratórios cada dia mais graves. A inspeção veicular deixada por Kassab teve seu fim decretada por Haddad pode ter tido suas boas razoes, inclusive legais, mas não deixou de ser uma decisão de campanha, populista típica de PT, que afeta gravemente a saúde de toda a população paulistana. Vide o esgotamento de alguns remédios para tratamento de vias respiratórias (não gripe).

sexta-feira, 14 de julho de 2017

Sem perícia, sem verdade; e futuras mortes


Este filme mostra o crash test frontal em obstáculo imóvel do VW Jetta, creio que o mesmo carro envolvido no acidente que matou carbonizado o comissário de bordo na av. 23 de Maio. Se não me falha a memória a velocidade padrão num crash test é de 40 km\h. Olhando a deformação frontal do Jetta neste crash test e comparando com o que restou do acidente ocorrido nesta madrugada e sabendo que o veículo onde morreu carbonizado o comissário de bordo estava em movimento, a 50 km\h, e tem estrutura deformável, dá para imaginar que a velocidade de impacto do Jetta devia ser superior a 100 km\h. Creio que não esteja errado.
A matéria do SPTV 2 edição é boa e dá para entender:
http://g1.globo.com/sao-paulo/sptv-2edicao/videos/t/edicoes/v/motorista-do-acidente-na-bandeirantes-esta-preso-e-vai-responder-por-homicidio-doloso/6008591/

Por que estou fazendo esta análise mequetrefe? Simples: segurança no trânsito é ciência. Não dá para ficar falando besteira por ai. Besteira mata. Mata porque esconde a verdade e sem a verdade os acidentes se repetem. 
Brasileiro não é afeito a pesquisa, menos ainda a números, à verdade. Só se para a barbárie que vivemos através da lei e ordem. Não pressionar o Governo para que tenhamos mais e melhor perícia judiciária e legistas é condenar o pais a violência sem fim. 

É óbvio que não vai haver condição de perícia para saber porque o carro do comissário de bordo pegou fogo, o que não poderia ter acontecido mesmo com uma colisão tão forte. A conversa vai se manter no comportamento do advogado motorista. Detalhes técnicos vão ficar em segundo plano, mas são justamente estes detalhes que melhoram a segurança de todos.

Desculpem por ser chato e repetitivo, mas quando vamos tomar consciência e agir para parar a barbárie?

segunda-feira, 3 de julho de 2017

despolitizar, negociar

Andei ouvindo mais algumas conversas sobre o que fazer com o "sistema cicloviário" de São Paulo. Todos perdidos no espaço. O que fazer? Que passos dar daqui para frente? Como abrir espaços na Prefeitura? Muitas reclamações, muitos comentários, poucas respostas práticas. É de se esperar que no meio de toda esta baderna generalizada que vivemos no Brasil o pessoal esteja um tanto desorientado. Pelo menos tenho ouvido que "precisa despartidarizar", o que para o que tínhamos até ontem parece ser uma mudança de posição inacreditável de um pessoal que até pouco tempo não conseguia sequer ser objetivo e confundia ciclovia com Brasília. Uns ainda confundem.
Diz a sabedoria milenar que para sair de uma situação confusa é preciso dar um primeiro passo. Despolitizar é sem dúvida um belo passo rumo à luz do túnel.
Tive uma breve e superficial experiência com a coisa pública e aprendi que lá dentro as coisas fogem um pouquinho, só um pouquinho, da lógica e bom senso esperados. Tipo assim: em 2005 numa vistoria em Interlagos \ Grajaú dei de cara com a Ponte Vitorino Goulard da Silva, em Jurubatuba, paralela a barragem da represa Billings, já em estado avançado de obras. Ninguém do projeto GEF Banco Mundial para bicicletas na periferia, que reunia mais de 10 Secretarias da Prefeitura e Estado, mais CET e outros, inclusive sociedade civil, sabia da existência sequer do projeto da bendita ponte. Olharam com cara de espanto para mim, como se eu estivesse surtando, e só acreditaram quando mostrei as fotos, pior, quando foram ver pessoalmente. É uma burocracia e corporativismo infernal, um jogo de esconde-esconde ridículo. Até o diabo em pessoa deve achar aquilo fora do controle, coisa de maluco. É obvio que foi projetada e concluída com uma calçada acanhada para receber o trânsito partilhado de pedestres e ciclistas, mesmo sendo uma das áreas com maior número de ciclistas da cidade. 
Ouvi num passado não muito distante de muitos cicloativistas que "dar um passo atrás é inaceitável". Negociar, uau, estão falando em negociar, tem um pessoal falando em conversar, negociar. Bravo!
O escritor israelense Amos Oz em sua palestra para o Fronteiras do Pensamento disse 'Fanáticos sempre esperam respostas simples' e completou o pensamento com a esperança que o cansaço de conflitos vai abrir espaço para diálogo e acordos. Citou a história da humanidade como base para suas ideias. E assim é porque assim sempre foi.
Mais incrível ainda é que já ouvi aqui e ali vozes de ciclistas falando que “a cidade existe” e que “o sistema cicloviário deve estar integrado a cidade”. Um não exclui o outro, muito pelo contrário. Ainda vão chegar lá, calma que vão chegar lá. 

Sistema cicloviário não é o fim, é o meio. 

quarta-feira, 28 de junho de 2017

Incitação à violência

Fórum do Leitor
O Estado de São Paulo
28 de Junho de 2017

Incitação à violência

É inegável que parte do acontecido na rua Augusta, que resultou em uma senhora e alguns skatistas feridos, também é fruto de incitação contínua à violência, intencional ou não, principalmente por parte de jornalistas, blogueiros e formadores de opinião ligados ao movimento da bicicleta, para iniciar com o que está mais na moda, skatistas e outras mobilidades alternativas. Sim, pedestres, ciclistas, pessoas com deficiência e qualquer um que realize mobilidade com veículo menor que um carro deve ter prioridade, como diz a Lei, o CTB, mas isto não imputa culpa e máxima pena automática ao motorista em caso de acidente. Defender uma posição desta forma é extremismo, é radicalismo, é incitação à violência. O uso da motocicleta é uma forma de modo de transporte como qualquer outra, mas a incitação à violência transformou a vida dos motoboys em guerra. Deveria ter sido o exemplo a não ser seguido, mas muitos do movimento da bicicleta decidiram declarar motoristas como assassinos por princípio, o que os números frios mostram que não são. É triste, muito triste, porque bicicleta, assim como skate, trazem consigo uma história internacional de levar à paz, ordem social, renovação da cidade, um futuro melhor para jovens, crianças, filhos e netos.

O vídeo de Renata Falzoni Atropelamento em massa de skatistas não foi acidente, foi atentado se pode ver o motorista, com um garoto no capo de o carro, sim acelerando em frente no meio da multidão, mas diminuindo a velocidade e desviando de outros skatistas que estavam no meio da rua. Num atentado em massa, como diz o título de matéria acima, o motorista buscaria fazer o maior número de vítimas possível, como se vê nas trágicas filmagens que temos dos atentados praticados na Europa e em NY.

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Logo em seguida de enviar o texto para o O Estado de São Paulo encontrei o Felipe e conversamos sobre a história. Felipe chamou o motorista de covarde e me perguntou se teria feito a mesma coisa. Minha resposta é sim, se tivesse que tirar minha mãe, ou qualquer pessoa que estivesse comigo, de lá teria seguido em frente. Felipe perguntou porque ele não virou a direita. A pergunta que faço é se a rua Augusta já estava toda fechada com cavaletes ou viaturas. Porque ele não passou por cima dos cavaletes, replicou Felipe. A questão numa situação destas tem um componente, pânico. Todo mundo sabe que Brasil é um dos países mais violentos do mundo, um dos campeões de linchamento. 
É fácil e muito perigoso para o movimento da bicicleta apontar o dedo e culpar, mesmo que a situação pareça óbvia, mas seria muito mais sensato e produtivo procurar conhecer todos os fatores que envolveram a situação. É fácil construir discórdias e ódio. Difícil e demorado é construir a paz. Para mim bicicleta é um veículo de paz. Skate também. E os outros de vez em quando cometem erros. Aliás, nós também cometemos erros. A vida é assim.
Felipe, desculpe pelo minha forma de conversar. Infelizmente o tema - violência - é visceral. Eu quero paz.

Vídeos mostram skatistas atacando carro de motorista antes do atropelamento na Rua Augusta
ps.: um erro não justifica o outro