terça-feira, 17 de outubro de 2017

"Você foi pela estrada? É muito perigoso!..." ?

Sentamos para jantar e passamos por todos assuntos familiares e costumeiros, mas nenhuma pergunta sobre minha viagem em bicicleta para Aparecida. A cara do meu pai quando quis contar bastou para que eu voltasse a ficar calado. Ele, como a maioria, acha uma loucura pedalar em estrada. Será? Não, não é. 
Seguro, o que é seguro? Depende de uma série de fatores, mas há os preponderantes. A maioria dos acidentes envolvendo ciclistas acontece em cruzamentos; em estrada nas saídas ou acessos da estrada ou quando o ciclista cruza a pista. É raro ciclista ser atropelado por trás pedalando do meio para o borde do acostamento. Se o acostamento for largo, sinalizado, limpo e sem buraco, por diversas razões diminui mais ainda a possibilidade de acidente. Com o ciclista visível para os motoristas, vestido de laranja ou, melhor, pink fluorecente, o risco é baixíssimo. Óbvio que tem o imponderável e Jesus me chama faz parte da vida. Comparado com pedalar na cidade pedalar na estrada é muito mais seguro.
Nunca no trajeto vermelho
NUNCA pedale como se estivesse dirigindo um carro, principalmente numa estrada ou via expressa. Pedalar seguindo em linha reta nas saídas e acessos, principalmente nos que permitem sair ou acessar em alta velocidade, é fator de alto risco para o ciclista. O correto é acompanhar o acostamento até onde o cruzamento da saída ou acesso puder ser realizado na menor distância, de preferência a 90º, porque é a posição onde ciclista e bicicleta ficam mais visíveis, onde o cruzamento se faz mais rapidamente, e o ciclista tem uma visão mais clara do trânsito. Pense no motorista dirigindo a 80 km/h e é fácil entender que um visto por trás ciclista fica praticamente invisível numa estrada ou via expressa, mais ainda em saídas e acessos rápidos. Não se engane colocando luzinhas e pisca-piscas porque a visibilidade destes durante o dia é praticamente nula. Não acredita? Leia as especificações técnicas do fabricante da lanterna ou pisca-pisca. Inseguro mesmo é acreditar que está seguro baseado em informações falsas, besteiras ou crenças. 
É lógico que existem pontos onde pedalar na estrada não é fácil, até perigoso. Áreas conurbadas, onde a estrada está dentro da cidade, normalmente é desagradável, para dizer o mínimo. Ai vale bom senso, paciência e cautela redobrada; e se possível procurar caminhos alternativos. 
Mesmo aqui no Brasil não fugimos da regra mundial que diz que mais da metade dos acidentes são causados e responsabilidade direta do condutor do veículo, o que inclui bicicleta. Ficar culpando os outros pelos seus problemas não resolve nada, aliás, só gera novas situações perigosas.

Nesta romaria para Aparecida até onde soube morreram dois, um atropelado na Dutra e uma senhora que tomou um tronco de árvore na cabeça. Há locais onde não gostei nada de pedalar, todos em trechos de estradas passando por dentro de uma cidade. Antonio Olinto, respeitadíssimo cicloturista que já deu algumas voltas ao mundo pedalando, afirma que o problema é cidade grande, o resto é muito seguro. Palavra de papa.

sábado, 14 de outubro de 2017

Sobre matéria no Estadão expresso "Ser pedestre..."

Fórum do Leitor
O Estado de São Paulo

'Ser pedestre é estar aberto às experiências e ao mundo'

Boa matéria se for vista como a primeira de muitas sobre pedestres e reconstrução das cidades. Mas no box "Caminho das pedras" onde Vitor Andrade "aponta fatores importantes para melhorar as condições de mobilidade a pé nas cidades brasileiras" não está citado a melhoria da técnica utilizada no desenho das vias e implantação de sinalização, onde estamos ainda na idade medieval. Faixa de pedestre posicionada de forma a não atrapalhar o trânsito de veículos motorizados e que obriga o pedestre a caminhar muito para poder cruzar uma rua é o erro mais frequente. Não interessa à engenharia de trânsito o caminho natural do pedestre, que normalmente é uma linha o mais reta possível. Semáforos para pedestres que demoram uma eternidade. Ou inexistência de semáforo, ou pior de faixa de pedestre em áreas de intenso fluxo de pedestres, como nos acessos a parques, vide o tratamento dado ao pedestre no Parque Ibirapuera X av. Pedro Alvares Cabral ou República do Líbano; dentre tantos outros exemplos. Para a engenharia de tráfego o pedestre que se vire, pelo menos esta é a sensação. Agora, especialistas (e ativistas) não conhecerem o trabalho de Michael King junto com ITDP, dentre tantos outros, no que trata sobre os caminhos do pedestre... sem comentários. Enfim, um dos fatores cruciais para melhoria da vida do pedestre no Brasil está o respeito ao desejo de trajeto deste mesmo pedestre. Para terminar: a bronca acima vale para todos jornalistas brasileiros, que também são pedestres. Ninguém fala ou escreve uma linha sobre os problemas técnicos, ninguém. Impressionante!

quinta-feira, 12 de outubro de 2017

Último dia de "romaria" para Aparecida, 300 anos

Começo pelo fim. Cheguei lá. E eu que não sou de fazer selfy tirei a minha na ponte de entrada da cidade com a Basílica de Aparecida ao fundo. Entro na cidade pela rua paralela à Basílica, paro para um cafezinho obrigatório, já um pouco assustado como estava calmo. Vou para a Basílica, subo a rampa com muito menos gente que esperava. Missa correndo, Basílica cheia. Não fui ao shopping que fica atrás da Basílica que com certeza deveria estar cheio. Mas no entorno, muito menos que imaginei. Estranho porque enquanto vinha pela Dutra fiquei impressionado com a quantidade de peregrinos caminhando dos dois lados da estrada. Imaginei encontrar uma grande festa, daquelas que você tem alguma dificuldade de circular no meio do povaréu, mas nada disto. 
A decoração interna da Basílica está concluída. Ficou lindíssima, de muito bom gosto. É uma obra quase monumental, simples, inteligente, alegre. Os murais são de rara beleza, leves, produto de fino artista, acompanham e completam a grandeza e modernidade da arquitetura. Vale a visita mesmo para quem não é religioso ou cristão. 
E o povo? Confesso que fiquei decepcionado. Onde está o povo? Minha ideia era passar o dia circulando na bagunça, ver a festa noturna e só ir embora no dia 12 de Outubro, dia da Padroeira, Dia das Crianças, da inauguração do Cristo Redentor, e do aniversário de minha mãe. Razões para ficar na festa não faltava, mas forças sim. E onde está a festa?
Para fugir do sol inclemente, oficialmente uns 35º C, mais quente no asfalto da estrada movimentada, desde de São José dos Campos pedalei num ritmo bem mais forte que o normal. Sacrifiquei as pernas para não virar churrasco de gato no asfalto. Cheguei bem, mas bem cansado. E sem festa, sem povão, com o pneu traseiro da bicicleta deformado, difícil de pedalar e pronto para estourar... Uma nuvem negra no horizonte vindo rapidamente. Ir para Pindamonhangaba, a outra alternativa, e voltar mais tarde ou no dia seguinte, com aquele pneu nem pensar. Cansado tudo que não queria era ficar no meio da estrada. Fui até a informação e me disseram que naquele horário seria muito fácil encontrar ônibus para voltar para São Paulo, mas que no dia seguinte, dia 12, seria bem difícil. Decidi tentar a sorte na rodoviária. Entre a Basílica e a rodoviária tem a rua do comércio local e lá estavam todo povão em compras. Parecia até uma 25 de Março. Eu não tenho tanta fé assim. Confesso que brochei. Melhor voltar para São Paulo.
Uns minutos depois estava dentro do ônibus, feliz por ter chegado e frustrado por não ficar. Entramos na Dutra e fiquei impressionado com a quantidade de peregrino caminhando e mais impressionado ainda com o número de ciclistas que vi passar. Até um pouco depois de São José dos Campos foi muito ciclista, não sei quantos, mas muito mais ciclista que imaginara. Parei de ver os ciclistas quando a chuva chegou forte. 
Hoje é dia 12. Acompanhei com certa frustração os acontecimentos pela TV. Queria estar lá. Infelizmente não tenho mais 20 ou 30 anos, mas felizmente tenho cabeça para ficar longe da confusão que foi. Aparecida recebeu mais gente do que esperavam. Ficou um tanto complicado por lá. 
Quer saber, me diverti muito. Tenho vontade de voltar para estrada agora. Não sei a quem agradecer, mas a viagem foi ótima. "Sou caipira Pirapora, Nossa Senhora de Aparecida, ilumina...


terça-feira, 10 de outubro de 2017

São Paulo, Sorocaba. São José dos Campos, Aparecida do Norte

Tenho sobrinha com duas filhas vivendo em Piedade, que fica próxima a Sorocaba. Piedade é típica cidade pequena de interior brasileira, feia, mal resolvida, com crescimento desordenado, obviamente com edifício alto no meio da cidade (sinal de riqueza ou pobreza?), nada mais que um aglomerado de pessoas ocupando uma área. As opções de hotel de lá são mais caras que do Ibis de Sorocaba, cidade com cara de cidade. 10 X 0 pro Ibis e Sorocaba. Fui de São Paulo para Sorocaba pedalando pela rodovia Castelo Branco, muito mais tranquilo que imaginava, mesmo com chuva a partir da metade do caminho e dos 4 furos de pneu. 
Sair de qualquer cidade grande normalmente é complicado. Estradas conurbadas deveriam ser tratadas de forma completamente diferente do que temos hoje, aqui e todas as partes do mundo. Viraram vias expressas completamente hostis a qualquer forma de vida no entorno. Descobri um caminho para fugir dos primeiros 18 km da Castelo Branco, os mais críticos. Foi ótimo. Um dia gostaria de ir para Piedade pela rodovia Raposo Tavares, mas até Cotia é perigosa, desagradável para o ciclista. Pena, porque passou Cotia a paisagem é linda. 
Como todas as vezes que fui visitar as meninas em Piedade aproveitei e pedalei no extenso sistema cicloviário de Sorocaba O trecho que ladeia o rio Sorocaba é muito simpático, obrigatório. Fora de fim de semana praticamente não se vê ciclistas circulando na área mais rica da cidade. Preciso um dia acordar bem cedo para ver o que acontece no horário de ida para o trabalho e nos bairros mais simples.
Passada a festa de aniversário de minha sobrinha neta, hora de iniciar a segunda parte da viagem: ir para Aparecida do Norte ver a comemoração dos 300 anos do encontro da pequena Santa.
Sorocaba - Jundiaí, primeira etapa, um pouco mais de 80 km, com parada obrigatória para almoçar no Tonilu Café em Itú, um dos melhores pasteis do Estado de São Paulo, com direito a bom café passado no ato no coador. Tive que resolver umas coisas em Sorocaba e acabei saindo às 9:10 h, tarde para um dia ensolarado. Foi um racha coco terrível, principalmente a tarde. Felizmente o vento contra diminuiu com o passar do dia e não tive furo de pneu, mas foi duro, bem duro. Também tive que controlar a dor no adutor da perna esquerda, na verdade um cansaço provocado por exageros infantis um dia antes de minha partida de São Paulo.
 Jundiaí - Atibaia foi o máximo. Olhei os mapas e descobri que há uma estradinha que liga as duas cidades, uns 25 km mais curta que via Jarinu, pela estrada principal. Esta pesquisa também me mostrou que mesmo os mapas da internet tem pequenos problemas e até erros. Minha saída de Jundiaí até chegar na Estrada Bragantina, que sai de Campo Limpo Paulista, foi na base do pára - pergunta e a maioria não fazia ideia sobre o que eu estava falando. Todos sabem chegar em Atibaia via Jarinu, mas ir direto? estradinha?... A Estrada Bragantina é a desativada linha do trem, com suas curvas e inclinações bem suaves, divina para pedalar. Cheia de bugios e outros macacos berrando o cio. Primavera! Recomendo muito o passeio. Um pouco menos de 40 km perfeitos até para iniciantes. 
Cheguei cedo em Atibaia e nadei. A água me relaxou, melhor, virei gelatina. Bem que precisava. Acordei um pouco antes das 4:00 h da madrugada e fui para estrada, direto para São José dos Campos. 
Pedalar a noite é muito tranquilo, silencioso, mas prefiro ir vendo a paisagem. Mais um furo de pneu. Os acostamentos estão cheios de restos de pneu de caminhão, cheios de fiapos furantes, um nojo. No meio do caminho, em Igaratá, chuva forte. Mais uma vez tive a sorte de pegar o início da chuva num posto tomando café. Diminuiu um pouco, vesti a capa e cai na sopa. A chuva só diminuiu na Dutra, já próximo de São José do Campo. Felizmente não furou outro pneu. 
O problema da Dutra é que em alguns trechos não há acostamento, nem calçada ou via paralela. Acho um absurdo para uma via é passagem de romeiros e tem muito trabalhador caminhando para o trabalho. De novo, problema da via conurbada. Dutra virou um avenidão a beira do caos. Quando foi feito o projeto cicloviário de Guarulhos a contagem de ciclistas na Dutra entre a Rodovia Helio Smitd, que vai para o aeroporto de Guarulhos, e Bonsucesso, do outro lado da cidade, apontou um ciclista a cada 27 segundos em horário de pico, todos trabalhadores; sem falar dos pedestres. 
A quantidade de romeiro indo para a comemoração dos 300 anos da Padroeira é absurda. Quatro dias antes, dia 8, tinha mais romeiro na estrada que um dia antes, dia 11, no ano passado. 
Estou parado em São José dos Campos para visitar um amigo. Gostaria de ter encontrado vaga no meu hotel predileto em Pindamonhangaba, mas demorei para fazer a reserva. Pinda vale uma parada mais longa. Pena. Amanha sigo para Aparecida. Hoje aqui está um racha coco absurdo. Espero que amanha o clima seja menos impiedoso. 

domingo, 8 de outubro de 2017

Três recomendações para a revisão do CTB

O Estado de São Paulo
Fórum do Leitor: 

Três recomendações para o novo Código Brasileiro de Trânsito que está em tramitação.
Primeira: deixar mais explícito do que já está que o CTB vale para todo território Nacional - incluindo áreas particulares públicas e privadas. Parece besteira, mas definitivamente não é. Já ouvi de "autoridades", no caso segurança local, que não podiam fazer nada em relação a motoristas circulando em alta velocidade, desrespeitando pedestres ou cometendo outras infrações de trânsito dentro de estacionamento de shopping, supermercado, condomínios e até mesmo dentro de estacionamento de propriedade pública. Deve haver algum buraco na lei que permite que dentro de certas áreas o CTB não possa ser completamente aplicado, o que é um absurdo, afinal se encontram em Território Nacional. Ou não? Assim como as comunidades, favelas, tem leis próprias ditada pelo dono do pedaço?
Segunda recomendação: A lei que obriga motoristas e motociclistas a ultrapassar ciclistas a 1,5 m. nunca foi aplicada porque na pratica é impossível medir a distância entre os dois veículos, carros ou motos e bicicletas em movimento e no exato momento da infração. A recomendação é que o CTB descreva de maneira simples e direta como deve ocorrer uma ultrapassagem com segurança. Afinal, toda ultrapassagem deve realizada respeitando a segurança e integridade de quem está sendo ultrapassado. E, qualquer ultrapassagem consiste nos atos da sinalização, aproximação, emparelhamento, ultrapassagem, e distanciamento do veículo, pessoa, ou animal que esteja circulando mais lento, não só manter 1,5 m. de distância. Não adianta ultrapassar guardando distância correta e logo depois frear e virar na direção de quem foi ultrapassado, principal razão de acidentes envolvendo ciclistas. Mais, regulamentando o ato completo de ultrapassagem se estará dando segurança aos pedestres que hoje sofrem por conta da falta de civilidade de muitos ciclistas.

Terceira: pelo CTB ciclista é condutor de um veículo, a bicicleta, mas mui raro é punido por infrações ou mau comportamento. É necessário tapar este buraco. Pedestres e ciclistas (e todos mais) têm que receber a educação obrigatória já estabelecida pelo CTB e que até hoje foi só para inglês ver, não colou. E no caso de infração deve ser punido como qualquer cidadão comum. 

quarta-feira, 4 de outubro de 2017

A vida diz tudo a todos

A vida é estranha. Quando você está propenso a revisar sua própria vida acontecem umas coisas estranhas. Primeiro foi o choque que tive dando aulas para um menino de 11 anos. Sua calma e objetividade espelhou o que intuitivamente eu invejava em alguns amigos de minha infância na escola. Demorei décadas para entender que o que me fascinava neles era a naturalidade com que se comunicavam ou faziam as coisas mais simples. Eu era irrequieto, perdido na minha própria agitação de quem tem DDA, Distúrbio de Déficit de Atenção, misturado com dislexia e hipo-hiper glicemia, que provoca choques glicêmicos e consequentes acessos de instabilidade emocional. 
Cansado de meu próprio comportamento fui a procura de ser melhor e fiz e continuo fazendo uma espécie de cruzada na busca da paz que via em algumas pessoas. Uma delas, Tina, a quem devo eternamente desculpas, me estendeu confiança e alguns livros, dentre eles O homem e seus símbolos (Jung), Bhagavad Gita e Sidarta. Sidarta foi um divisor de águas, uma ponte sobre o mar de ventanias fortes e águas revoltas. Ser ou ter? (também título de outro livro importante). Pendi para o ser. E estar. No estar se encaixa e entrou a bicicleta e seu pequeno milagre de brincar com o equilíbrio e oferecer liberdade. 
A vida seguiu seu destino e aos poucos o fogo dos delírios normais da imaturidade foram perdendo espaço para sonhos supostamente realizáveis; e estes bem continuaram seu caminho rumo a realidade. "A vida diz tudo a todos" repetia com frequência Lollia, minha mãe. A vida confirma. Demorei muito para perceber que muitas de minhas referências são simplesmente humanas, tão falhas e tão normais como a maioria que está por ai, mas dentro de um imaginário prestaram um grande serviço apontando um norte.
Norte. Não é um caminho fácil. Não é chegar na Shangrila do filme, nem no Nirvana Budista, muito menos qualquer paraíso. Pena, mas sem boas chacoalhadas não aprendemos. Buscar viver com um mínimo de sensatez. Viver. Mais: é norte, leste, sul, oeste..., não necessariamente nesta ordem.
Estou, melhor, continuo revisitando meu passado. Nem tão belo ou horroroso como senti no momento dos acontecimentos. Me orgulho de ter me esforçado em aprender com meus próprios erros, muitos idiotas, estúpidos, completamente desnecessários, doloridos que não passam, mas que a vida nos coloca de proa. Não se foge ou apaga os pecados, mas possível tentar lavar um pouco a alma mostrando a outros como evitá-los. Sempre há um caminho mais fácil e seguro. Passa longe do inconsequente e com certeza absoluta do a qualquer custo.
Hoje está mais que provado pela ciência: o bem está no coletivo, no diálogo, é o futuro. A sabedoria está na dúvida, dúvida até do que é correto. Correto quando?; para quem?; como?...A vida é estranha. Quando você está propenso a revisar sua própria vida acontecem umas coisas estranhas. Primeiro foi o choque que tive dando aluas para um menino de 11 anos. Sua calma e objetividade espelhou o que intuitivamente eu invejava em alguns amigos de minha infância na escola. Demorei décadas para entender que o que me fascinava neles era a naturalidade com que se comunicavam ou faziam as coisas mais simples. Eu era irrequieto, perdido na minha própria agitação de quem tem DDA, Distúrbio de Déficit de Atenção, misturado com dislexia e hipo-hiper glicemia, que provoca choques glicêmicos e consequentes acessos de instabilidade emocional. 
Cansado de meu próprio comportamento fui a procura de ser melhor e fiz e continuo fazendo uma espécie de cruzada na busca da paz que via em algumas pessoas. Uma delas, Tina, a quem devo eternamente desculpas, me estendeu confiança e alguns livros, dentre eles O homem e seus símbolos (Jung), Bhagavad Gita e Sidarta. Sidarta foi um divisor de águas, uma ponte sobre o mar de ventanias fortes e águas revoltas. Ser ou ter? (também título de outro livro importante). Pendi para o ser. E estar. No estar se encaixa e entrou a bicicleta e seu pequeno milagre de brincar com o equilíbrio e oferecer liberdade. 
A vida seguiu seu destino e aos poucos o fogo dos delírios normais da imaturidade foram perdendo espaço para sonhos supostamente realizáveis; e estes bem continuaram seu caminho rumo a realidade. "A vida diz tudo a todos" repetia com frequência Lollia, minha mãe. A vida confirma. Demorei muito para perceber que muitas de minhas referências são simplesmente humanas, tão falhas e tão normais como a maioria que está por ai, mas dentro de um imaginário prestaram um grande serviço apontando um norte.
Norte. Não é um caminho fácil. Não é chegar na Shangrila do filme, nem no Nirvana Budista, muito menos qualquer paraíso. Pena, mas sem boas chacoalhadas não aprendemos. Buscar viver com um mínimo de sensatez. Viver. Mais: é norte, leste, sul, oeste..., não necessariamente nesta ordem.
Estou, melhor, continuo revisitando meu passado. Nem tão belo ou horroroso como senti no momento dos acontecimentos. Me orgulho de ter me esforçado em aprender com meus próprios erros, muitos idiotas, estúpidos, completamente desnecessários, doloridos que não passam, mas que a vida nos coloca de proa. Não se foge ou apaga os pecados, mas possível tentar lavar um pouco a alma mostrando a outros como evitá-los. Sempre há um caminho mais fácil e seguro. Passa longe do inconsequente e com certeza absoluta do a qualquer custo.
Hoje está mais que provado pela ciência: o bem está no coletivo, no diálogo, é o futuro. A sabedoria está na dúvida, dúvida até do que é correto. Correto quando?; para quem?; como?...


A 100 passos de um sonho.

quinta-feira, 28 de setembro de 2017

A história da humanidade e o paralelo da caça às bruxas

Somos e sempre fomos todos humanos, esta "coisa" não muito dignificante que está, principalmente em países retardados como o nosso. Iguais é o resumo em uma única palavra que se tem da história da humanidade depois que se lê a história real das bruxas, feiticeiras, bruxos e feiticeiros, e variantes. 
Porque se interessar pelo tema "bruxas" é a pergunta que mais ouço, e a resposta é muito simples: é a história (real) de uma pequena, mas importante, parte das mudanças comportamentais rumo ao que hoje chamamos de civilização e sua pretensa liberdade de viver e ser. 
A história é sempre a versão dos vencedores ou os que tem ou estão com o poder na mão. Quando comecei a ler a história da bicicleta descobri não só mais uma história esquecida ou escondida, mas várias versões da mesma história. Bicicleta simplesmente desapareceu, ou esteve desaparecida, da história dos transportes, das mudanças urbanas, comportamentais, esportivas e sociais, em particular no que toca a história das mulheres. Dai foi um passo para ter interesse na história das mulheres, e porque não das bruxas, as diferentes, fora do contexto social. Interessante é que mesmo o pessoal geração Black Sabbath / Ozzy Osbourne se assusta quando digo que estou lendo sobre bruxas. Deveria ser leitura obrigatória - história real embasada em documentos, como deste livro. Pouco a ver com a versão romanceada. Depois da leitura não tenho medo de dizer que gostaríamos de nos transformar em uma sociedade de aquellares. Ou de inquisidores. A saber, doentes mesmo eram os da inquisição e os caçadores de bruxas, como os são hoje que estão ai e me assustam. 
Para quem quer saber a história das mulheres "bruxas" recomendo.